Louvor à musa centenária

Louvor à musa centenária

Louvor à musa centenária

Por João Bosco Fernandes

 
Quero, de antemão, agradecer ao honroso chamamento que me fez o professor Hélio Galiza, para ser o porta-voz das gratas emoções de nossa gente, nas comemorações desta epopeia centenária.


Há já distantes cinquenta anos, quando a banda de música completava o seu cinquentenário, no ano de 1964, saudei-a, através da rádio Alto Piranhas de Cajazeiras, parabenizando-a por sua longevidade e exaltando a vocação musical de nossa gente. À época, eu já colocava em relevo nosso pendor nativo, afirmando que os filhos destes pagos traziam no sangue, como uma predestinação, o germe da missa ou o germe da música.

 
Celeiro de vocações sacerdotais, cujo cerne maior se enraizava na vetusta quixaba, já começava a fenecer, submisso aos tufões da modernidade, quando o secularismo se impunha ao espiritualismo, substituindo-o por valores não menos nobres, que passaram a atrair a juventude para outros vôos igualmente meritórios.


Eram novas formas de exercer um sacerdócio, necessárias às exigências dos tempos modernos, que passaram a enriquecer a nossa história com gerações de homens de valor, que, em outras esferas de atividade, nutrem também de orgulho as honrosas tradições de nossa gente.


Faço aqui, por exemplo, menção ao nome do doutor Gentil Fernandes, filho do major José Fernandes da Costa, do Canadá, considerado o primeiro médico de nossa terra, pioneiro das numerosas gerações de médicos que o sucederam e colocam hoje Uiraúna, para orgulho de todos nós, no topo das cidades que mais possuem médicos em nosso estado.


Não menos significativa é a quantidade de profissionais, que julgamos acima de mil, formados em cursos superiores, nos mais diversificados ramos da ciência: direito, engenharia, odontologia, magistério, agronomia, enfermagem, e outras muitas profissões igualmente necessárias ao desenvolvimento cultural de nossa terra, nosso estado e nosso país.


Senhoras e senhores: a vocação musical nativa, esta continuou viçosa, ressurgindo e se multiplicando a cada nova geração, a perpetuar o mesmo ideal dos princípios do século XX, quando, nos idos distantes de 1914, um grupo pioneiro adventício, das bandas de Missões Velhas (CE), veio ensaiar aqui os primeiros acordes de uma sinfonia que reboa, há cem anos, nas ruas hoje modernas do antigo Belém, espargindo seus sons pelas planícies do vale do rio do peixe e fazendo-os ecoar por regiões bem mais longínquas.


Epopeia que nasceu do pioneirismo de quatro cearenses, fugitivos de rebeliões em sua terra e que vieram pousar nesta pequenina Canaã do Padre França, para aqui construir o berço desta musa embrionária. Os vultos pioneiros, liderados por Raimundo Sá e Lú Barreto, junto a José Brígido e José Passos, aqui encontraram Zequinha Correia e Marcelino do Poço, Antônio Caboclo, Major Guedes e Antônio Francisco, Zé de Velhinho, Zéu Fernandes (filho do Capitão Israel), além de outras personagens e organizaram a primeira filarmônica, que perdurou até 1927, sob as batutas de Raimundo Sá e Lú Barreto, os quais resolveram voltar à sua terra natal, deixando implantado nesta terra o cerne da gloriosa história de nossa filarmônica.


Após um interstício de dois anos e meses, no ano de 1930, com o advento do nosso eterno vigário, cônego Antônio Anacleto, a chama do ideal daqueles jovens, que ameaçara se extinguir, ressurge fortalecida, com o apoio do braço forte do capitão Israel Gomes da Silveira em consonância com o desejo de nosso vigário, fez importar da vizinha cidade de Sousa o maestro Misael Gadelha (Mestre Miza) para reorganizar o grupo e dar novo impulso ao movimento antes vascilante.


A banda, com a denominação de “Cônego Costa”, para uns, e de “Costa Correia”, para outros, ressurgiu como “Banda de Música Jesus, Maria e José”, batismo que perdura até hoje, fruto do esforço conjunto do Padre Anacleto, do Capitão Israel e o grupo dos voluntários idealistas.


Não podemos deixar esquecidos na memória nomes como Neco Manézinho, Luiz Rodrigues, José Rodrigues Pinheiro, José Velhinho, e tantos outros, porque todos são notas musicais que ressuscitam sons de uma sinfonia inacabada. Deste antigo, acervo de recordações, disseram que ainda restam dos primitivos instrumentos da banda, “Os Pratos” e, para representar toda esta galeria de vultos inesquecíveis, “o Maestro Dedé de Capitão”, a quem prestamos um culto especial, na qualidade de remanescente dessa estirpe, caindo-lhe bem o título honorífico de “Maestro Perpétuo”.


Muitas dessas curiosidades me foram repassadas pelo amigo inesquecível Firmo Correia de Queiroga, no convívio diário da casa de meu pai e com ele aprendi muitas lições do livro de nossa história. Depreendi, por exemplo, que nossa filarmônica teve como esteio os descendentes de Sabino Correia, do Capitão Israel e da velhíssima Mamãe Sabina. Três foram, portanto, sem tirar o mérito dos demais, os clãs que deram guarida à nossa vocação musical: Gomes da Silveira, Correia de Queiroga e descendentes de Sabina.

 
Esta segunda geração, além dos já citados, ganhou substância com os descendentes do Capitão Israel, como Manoel Israel da Silveira, e seus irmãos Misael e Cézar, (nomes que uiraúna jamais poderá esquecer), além de Expedito e Dedé, presentes entre nós, que dedicaram suas vidas à bela paixão pela deusa dos sons, traduzida na linguagem dos sonhos, dos amores e das belas recordações, que embalam os corações dos filhos desta terra.


Além deles, não deixaremos de citar outros grandes músicos, nossos contemporâneos, como os numerosos descendentes da Velha Sabina, fornalha de artistas espalhados por este Brasil. Nomes como o Sgto Gomes, ou Tiquinho, que partiu da planície para a borda do Altiplano, onde exibiu sua verve musical na Capital da República. O mesmo ocorreu com Zé de Milta, outro gênio da rainha da arte. Presto aqui esta homenagem a todos os descendentes de Sabina, na pessoa do Inequecível Deco, exemplo de dignidade, bondade e honradez.


E os descendentes de Sabino Correia? Outra fábrica de pioneiros, pois, sem um Zequinha Correia, um Firmo, entre os mais velhos; um Constantino, um Ariosvaldo, um Rivadávia, e outros vocacionados mais recentes, de diversos ramos familiares, todos atraídos pela harmonia dos sons. Esta terra é verdadeiramente musical.


Não posso, nesta hora, deixar de fazer uma referência, a meu cunhado Ariosvaldo Fernandes, a quem acompanhei desde a infância e vi de perto quanto ele amava a musa inspiradora. Posso dizer, sem medo de errar, que foi o único ideal de sua vida. Morreu de tocar. Prova está aí em seu único filho, o professor Francisco Xavier, artista nato, homem de cultura e de valor unanimemente reconhecido. Como esquecer Walterluz, outra vocação igualmente precoce? Maestro e mestre Teluz, cadê você? - deve estar tocando na filarmônica de Deus! Atualmente, a banda continua fazendo sua passeata histórica, sob a batuta do maestro Geraldo Moisés, a quem saúdo, em nome de todos os demais apaixonados por esta rainha, e que não foram aqui citados nominalmente, mas que são sempre lembrados e perpetuados na memória de todos nós.


Continua, ó filarmônica de Jesus, Maria e José, a desfilar em nossas ruas, enchendo tudo de festa. Quem não gosta de ver a banda passar? Banda laureada de troféus, que já se exibiu em tantas cidades, a preferida de regiões distantes! Reconhecida como entidade cultural de utilidade pública, tem recebido, uma vez ou outra, verbas da União, mas permanece carente dos incentivos dos poderes públicos, pois nem a paróquia, nem a Sodau (sociedade mantenedora), podem dispensar-lhe as atenções que ela merece.


(inserir aqui referência a João Claudino, mecenas maior da terra...) Patrimônio cultural do povo, ela é merecedora das benesses das autoridades, dos nossos representantes, em todas as esferas do poder público: municipal, estadual e federal. Faltam projetos bem elaborados e direcionados ao Ministério da Cultura, aos órgãos dos governos estadual e municipal, já que se trata de uma entidade pública essencial, que não pode sobreviver de meras contribuições dos homens de boa vontade. Saudamos, enfim, com todo o carinho, nossa banda de música centenária, mensageira das alegrias de nosso povo, porta-voz de uma melodia imortal!


Muito obrigado!