Três vidas, três Destinos. O ódio não constrói

Três vidas, três Destinos. O ódio não constrói

A Paraiba viveu, mais uma vez, no dia 26 de julho último, mais um aniversário ( 83 anos) de um episódio que alterou profundamente a vida de seu povo. Tentarei, aqui, retratar esses fatos de maneira simples e justa, despida de paixões de qualquer natureza, mas relatando fatos fiéis à verdade, na melhor forma possível.
- João Pessoa
O ano de 1930 não prenunciava ser muito benfazejo, no âmbito da política nacional. Parecia que aves agourentas sobrevoavam os céus do país. Era o crack das bolsas americanas(1929), repercutindo na economia brasileira, na crise do café, nas nossas exportações.
As eleições presidenciais previstas para esse ano vinham carregadas dessas preocupações, havendo, por isto, forte desejo de mudança, no sentido de desmontar o habitual revezamento do esquema Minas -  São Paulo, com  a chamada política do “café com leite”-  injetando-se sangue novo nas veias da nação.
Eis  que se levanta, lá dos pampas gaúchos, um grito da terra do Sul,  de São Borja para o Brasil, proclamando-se candidato de oposição ao governo  central, (fato que jamais ocorrera antes) , anunciado por Getúlio Dorneles Vargas, então Presidente da província,  tendo como candidato  a vice  o Presidente João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque,  da Paraíba, que sempre teve como protetor e guia o seu tio Epitácio da Silva Pessoa, ex-presidente da República.
Realizadas as eleições a 1  de março de 1930, foram anunciados os resultados da vitória esmagadora dos candidatos oficiais: JúlioPrestes-Vital Soares. Getúlio Vargas, com o apoio decisivo de uma “troupe” de intimoratos idealistas, avança de seus rincões em busca do Palácio do Catete, dispostos todos eles a depor o Governo recém-eleito, o que fez Batista Lusardo proclamar, com sua eloquência e emoção: “ Desta grande batalha que empreendemos, ou voltamos com honra ou não voltamos mais...”.
Pois bem. A revolução tomava as ruas, espargindo-se por todo o país, apesar de contar  apenas com o apoio oficial de três províncias: Rio Grande do Sul, Paraíba e Minas Gerais. O movimento tomou impulso cada vez maior com o assassinato de João Pessoa, na cidade do Recife (Confeitaria Glória), perpetrado pelo advogado João Duarte Dantas, de quem era desafeto, por motivos de política provinciana. Era o dia 26 de julho daquele ano fatídico de 1930.
- João Dantas
Era um advogado conceituado, com escritório na capital do Estado, oriundo das famílias Duarte e Dantas, natural da cidade de Teixeira. Politicamente, ligado ao Cel. José Pereira, chefe político de Princesa Isabel e ao Dr. João Suassuna, líder político em Catolé do Rocha, que fora o Presidente da província,como antecessor de João Pessoa. Não era de surpreender que a conduta política de João Dantas fosse frontalmente contrária à de João Pessoa, uma vez que este era inimigo ferrenho desses coronéis e de todo o coronelismo da época, que procurou extirpar definitivamente de todos os quadrantes do Estado.  Por sinal, esta era a meta, o objetivo maior de seu governo. Delírio utópico, que jamais se concretizaria, tanto que, ainda hoje, 83( oitenta e três) anos depois, o domínio dos feudos por alguns grupos familiares, que é uma forma um pouco mais civilizada do velho coronelismo, ainda prevalece em nossos grotões... Dados oficiais confirmam que apenas seis (6) clãs familiares dominam atualmente a política do nosso pequenino Estado da Paraíba.
Enfim, por que João Pessoa foi assassinado por João Dantas?
Foram personagens dessa tragédia: João Pessoa, presidente do Estado, a vítima;João Dantas, o assassino,influente advogado, parente,amigo e correligionário do Cel. José Pereira, de Princesa e de João Suassuna, ex-presidente do Estado, de Catolé do Rocha. Lembrar que, na chamada República Velha, ( antes de 1930) , os Governadores de Estado eram chamados de Presidentes.
É evidente que João Dantas fazia forte oposição a João Pessoa, mas sofria, em represália, toda sorte de hostilidades. Seu apartamento, onde funcionava também o escritório, na Rua Duque de Caxias, 519 – Centro, foi invadido pela polícia do Estado, em dias do mês de julho, sob a orientação do Secretário de Segurança, cargo conhecido à época como Chefe de Polícia. João Dantas, que se encontrava em Recife, ao voltar, encontrou ali verdadeira depredação e devassa, em que livros, documentos, móveis,correspondências, foram jogados no meio da rua e nas sarjetas, onde foram encontradas também correspondências pessoais, cartas íntimas de sua noiva Anayde Beiriz, etc. O jornal oficial do governo “A União” publicava, ao mesmo tempo, acusações gravíssimas contra familiares de João Dantas.
Ante o agravamento da situação, foi ele aconselhado a voltar para Olinda, onde costumava ficar na residência de um cunhado, Augusto Moreira Caldas, enquanto os ânimos serenassem por aqui.
O Presidente João Pessoa projetou-se nacionalmente com o histórico  NEGO, que foi inscrito na bandeira da Paraíba, logo que recusou o apoio a Júlio Prestes, candidato do Presidente Washington Luís. E a campanha do golpe contra o governo central tomava novos impulsos com gestos assim.
No dia 26 de julho viajou a Recife, o que foi amplamente divulgado nos jornais da Paraíba e Pernambuco, a fim de visitar um grande amigo, o Juiz de Direito Francisco Tavares da Cunha Melo, que se encontrava internado no Hospital Centenário, daquela cidade.
João Dantas, que estava em seu exílio voluntário de Olinda, na residência do cunhado, ao dirigir-se de bonde para o centro de Recife, leu uma  manchete no jornal do passageiro que estava na cadeira da frente, anunciando a presença de João Pessoa em Recife, como dissemos acima. Puxou o cordão, desceu e voltou à casa do cunhado, onde se armou com um revólver e voltou ao Recife, na companhia do mesmo.
Curioso é que João Pessoa e João Dantas nunca haviam se encontrado. Não se conheciam. Mesmo assim, João Dantas, passando pela calçada da Confeitaria Glória, vislumbrou João Pessoa, tomando chá com diversos amigos do Recife.
Entrou pela porta da frente, aproximou-se do Presidente e anunciou:
- Eu sou João Dantas.
E, sacando o revólver, desferiu vários tiros, a pouca distância, do Presidente, ferindo-o mortalmente. Transportado agonizante para a Farmácia Vitória, a poucos metros dali, João Pessoa exalou o último suspiro, no balcão da  farmácia. Um tiro desferido contra João Dantas atingiu-lhe apenas a aba do chapéu.
Logo foram detidos João Dantas e seu cunhado e recolhidos à Casa de Detenção, onde ambos, no dia 03 de outubro, tiveram cortada a veia jugular, a golpes de bisturi. Quem? Pelo país a fora, recrudescia a Revolução de 30.
Anayde Beiriz
Namorada de João Dantas, Anayde era uma das jovens mais belas da Capital. Com 25 anos de idade, avançada para os costumes da época, cumpridora de seus deveres, dirigia-se diariamente a Cabedelo, à época distrito da Capital, a fim de ministrar suas aulas. Educadora estimada e culta. Com os acontecimentos do Recife, deslocou-se até ali,a fim de  visitar João  Dantas e  aguardar a evolução dos acontecimentos. Era uma forma também de se resguardar, política e moralmente, das agitações populares que o assassinato de João Pessoa provocou.
Esta trégua, porém, durou muito pouco tempo. Degolados João Dantas, e seu cunhado Moreira Caldas,(este sem ter nenhuma participação direta nesta pendenga), na Casa de Detenção do Recife, Anayde Beiriz entrou em profunda depressão e foi recolhida ao Abrigo Feminino do Bom Pastor, no Bairro de Madalena. Recebida pelas religiosas do Abrigo às 11 horas do dia 06 de outubro, veio a falecer 3 horas depois. No exame do IML, o laudo pericial registrou a “causa mortis”: envenenamento.
Com os dados aqui expostos e coletados, pretende-se, de modo simples e sem ostentação, reconstituir, na medida do possível, aqueles dolorosos acontecimentos. Fazemo-lo, despido de quaisquer pretensões, vaidades, radicalismos ou fanatismos, certo de estar contribuindo para uma releitura concreta e desapaixonada dos fatos históricos.
João Pessoa, janeiro de 2014
João Bosco Fernandes
Procurador aposentado