“Vir bonus, dicendi peritus”

“Vir bonus, dicendi peritus”

( É um homem de bem e que sabe falar)

 

 

POSFÁCIO DA OBRA “A VIDA E O TEMPO” -  MEMÓRIAS DO ESCRITOR JOACIL DE BRITTO PEREIRA – páginas 367 a 369

 

João Bosco Fernandes – Procurador aposentado

 

Ao passar a vista, a título de revisão, sobre os originais de suas Memórias, Doutor Joacil, tive a oportunidade de degustar “avant la lettre” um romance recheado de passagens redivivas, palco de histórias romanceadas e lances muitas vezes inesquecíveis.

 

Das evocações remotas da primeira infância, das peraltices do enfant terrible, rebento da velha freguesia de Senhora Santana do Caicó; das saudades da festa da padroeira, naqueles distantes 26 de julho; dos versinhos recitados aos cinco anos e que perduram grudados na memória; daquelas sombras todas que povoaram o seu mundo infantil, sombras de entes-queridos, fantasmas lhe acompanham a vida inteira.

 

Dos arroubos de juventude; do estudante irrequieto da Capital, com seu temperamento arrebatado, a oratória precoce, a coragem pessoal, atributos que cedo o qualificaram como líder das pelejas estudantis, valendo-lhe o apelido de atrevido lutador. Mas também daquele que se metamorfoseou no acadêmico laureado da velha Escola de Direito do Recife.

Sem esquecer o jovem recruta, soldado da Pátria, nos dias difíceis da guerra, enfrentando com destemor aquele terrível coronel Ururahy, em luta corporal, num trágico episódio que quase lhe custava a vida.

E a história vai ganhando contornos de tragédia romanesca. Quando, por exemplo, evoca as lágrimas derramadas por Dona Isabel, sobre as pedras das ruas do Recife, chorando pelo filho que ia sendo levado para Fernando de Noronha, sem esperança de não mais voltar. Fazem lembrar as “lágrimas benditas” desses versos do poeta:

Chora a mãe, por que é que chora?

É que o filho vai deixar...

Sim, o filho que ela adora,

Deixá-lo ir-se embora,

Nem tão cedo há de voltar...

Lágrimas poderosas aquelas que realizaram o milagre de trazer seu filho de volta para casa. “Que tanto puede una mujer que llora”. Como aconteceu esse milagre? Só a leitura dirá.

 

Depois, vieram as lutas políticas. Cheias de curvas sinuosas, como ondas revoltas, altivas e encapeladas, espelho vivo de seus sonhos altaneiros. São enredos que se entrelaçam e se emaranham, na voragem do tempo; episódios palpitantes de toda uma vida irrequieta, trepidante, triunfante.

Lembro-me que Ascendino Leite, falando, certa vez, a seu respeito, em Momentos Intemporais, afirma:

 

(...) se dependesse de mim, faria dele Governador de nosso Estado ou representante perpétuo no Senado da República.

 

Estou com ele. Não entendo porque os fados não lhe foram mais generosos.

 

Em compensação, suas atividades de causídico, de homem de cátedra e homem de letras, têm sido sempre fulgurantes, vitoriosas. Além de bravo e leal, lealdade à prova de fogo, é senhor também de duas outras virtudes inconfundíveis, preconizadas pelo Velho Catão: vir bonus, dicendi peritus. É um homem de bem e que sabe falar.

 

Pois bem: o seu livro narra com fidelidade a história toda de sua vida, com seus altos e baixos, idas e vindas, oásis e desertos. É um cruzeiro que fazemos através de seu mundo, na sua companhia: muitas vezes, esquiamos sobre auroras, em outras tantas nos equilibramos sobre punhais. Assim é a vida.