Lições que a vida nos ensina

Lições que a vida nos ensina

Os costumes políticos que vêm sendo praticados no Brasil, de uns tempos para cá, levam a uma reflexão inicial sobre as origens mais primitivas do termo POLÍTICA, a mais bela invenção dos gregos, talvez dos homens, que os ventos da História fizeram chegar até nós.

 

Palavra que deriva de pólis, isto é, cidade, comunidade constituída e organizada pelos cidadãos ( políticos). Estes, nascidos no mesmo solo, livres e iguais, independentes de preconceitos ou interesses escusos. Em Roma, onde floresceu, ao mesmo tempo, a civilização latina, os conceitos também eram os mesmos: a respublica ( coisa pública) tinha o mesmo significado da Política dos gregos, pois a pólis  grega, a que acima nos referimos, é a mesma civitas dos romanos, no mesmo sentido de cidade, onde moureja o cidadão, o civil, senhor da civilidade.


Mesmo ao tratar das muitas instituições humanas, como a família, a casa, o lar, as crenças e outras, a civilização greco-romana nos legou todo o acervo formador dos conceitos de Estado, Política, República, onde jamais encontraremos qualquer semelhança, referência ou afinidade com os conceitos acima mencionados, pois sempre souberam diferenciar a res- publica (coisa pública) da res- privata ( coisa privada). Eram conceitos diferenciados, intocáveis, inconfundíveis, sagrados. Como o direito de propriedade, por exemplo, inabalável no direito romano, quem seria capaz de desrespeitá-lo? Ainda hoje, quem tentará fazê-lo? Pois é a mesma coisa. É o mesmo raciocínio. Dará para entendê-lo?

Vamos dar um pulo na História, com alguns exemplos:


Conta-nos Humberto de Campos que o grande romancista Joaquim Manoel de Macedo, autor de A Moreninha, professor das princesas, filhas do Imperador Pedro II, foi convidado para ocupar a pasta do Ministério do Exterior. O escritor declinou da honraria, o que fez o imperador chamá-lo a sua presença e indagar o motivo de seu gesto, uma vez que ele possuía tantas qualidades para ser ministro Macedo respondeu: Admita-se que eu possua tais qualidades. Mas não sou rico, Majestade, requisito este indispensável a um ministro que pretenda ser independente. E concluiu: Eu não quero sair do Ministério endividado ou ladrão!


Que diferença dos tempos de hoje...


A lembrança de Humberto de Campos leva a esta outra:


O escritor Vasconcelos Drummond relata que no período da Regência de D. Pedro I os irmãos Andrada, José Bonifácio e Joaquim Francisco, eram Ministros do Império. José Bonifácio de Andrada e Silva era o Primeiro Ministro, com salário de 400 mil réis. O Ministro da Fazenda era o seu irmão Joaquim Francisco de Andrada e Silva, com igual salário.


Certo dia, José Bonifácio foi assistir a uma peça de teatro e colocou o cheque do pagamento na parte interna do chapéu, deixando o chapéu no assento vizinho, que estava desocupado. Um pilantra ( já havia isto também naquele tempo!) roubou o dinheiro e safou-se. O ministro só deu pela falta quando saiu do teatro. Era tudo o que possuía para passar o mês.


Logo a conversa se espalhou e, chegando aos ouvidos do imperador, este ordenou que Joaquim Francisco pagasse outro salário ao irmão, pois este não poderia sofrer essa privação.


Joaquim Francisco reagiu com veemência, afirmando que não era correto pagar 13 meses a um servidor público, quando todos os demais recebiam 12 meses. Tanto assim, que iria dividir seu salário com o irmão, de modo que, durante aquele mês, ambos apertariam seus cintos... E assim ficou.


Este exemplo passou para a História como INTEIREZA DOS ANDRADA e parece hoje uma piada...


Que diferença dos dias de hoje...


Por fim, para sairmos deste tema que parece ter a intenção de colocar chapéu n’alguma cabeça coroada, quero concluir esta reflexão com aquela historieta do cego que mendigava nas calçadas Paris, em plena primavera, onde o esplendor das luzes da noite não era mais belo que o colorido das árvores floridas nas manhãs dos Champs Elisées...


Pois bem, ali ele se postava, todos os dias, esperando que pingassem lentamente as moedinhas na pequena bacia, até se recolher, à noitinha, ao seu abrigo. Ocorre que, um dia, alguém se aproxima, gira a tabuleta que ele conduzia, escreve umas palavras nela e continua seu caminho. Daí a pouco, começam a chover moedas na bacia do ceguinho, e mais moedas, mais moedas...


À tardinha, o mendigo ouve as mesmas pisadas da manhã e logo pressentiu de quem eram. - O senhor parou aqui pela manhã, mexeu na tabuleta e escreveu nela alguma coisa e, a partir daí, não parou mais de cair moeda na bacia. Posso saber o que foi isto?


O homem disse a ele: Eu apenas virei sua tabuleta onde estava escrito: “Uma esmola para o cego” e escrevi do lado contrário: “É primavera em Paris. E eu não posso ver”.


Ainda vemos gestos nobres nos dias hoje...


João Bosco Fernandes – Advogado


João Pessoa, agosto/2012