Mediocridade nacional

Mediocridade nacional

Descartando um pouco os nossos costumeiros temas jurídicos, um fato novo nos chama a atenção, ao depararmo-nos,  ocasionalmente, com certos dados curiosos, atinentes a aspectos de nossa realidade, os quais nos deixam confusos, temerosos até, no tocante à preservação de nossos valores culturais.

 

E observamos que a "mediocridade” vem montando, a cada dia, no cavalo da estribaria nacional.

 

No campo espiritual, por exemplo, é inegável como "a diversidade religiosa", associada a uma certa "filantropia", passaram a fabricar milionários, camuflados de vanguardeiros de virtudes, utilizando-se de certo "cristianismo de resultados", em que a eficácia do milagre determina o valor da "cura". Assim, a exploração da ignorância ou inocência dos incautos vai enchendo, "em nome de Deus", as "burras" desses profetas modernos. Seus nomes são amplamente conhecidos no mundo dos negócios e no mundo inteiro. Basta contemplar a suntuosidade dos seus templos, o alto padrão de suas mansões e vivendas, em contraposição com o baixo nível material e intelectual de seus devotos, seja na cidade grande ou no pequeno vilarejo.

 

No campo da cultura, é essa proliferação desordenada de escolas, faculdades e universidades, em todos os recantos, com a mesma fúria avassaladora, o que nos leva a indagar até onde pretende chegar tão generosa oferta de "fábricas do saber". Ponho em dúvida a qualidade desse ensino, os critérios para sua implantação, os  fatores determinantes do grau de sua eficácia.

 

É de se questionar que estarei me opondo à política de expansão do ensino, necessária a este enorme país tropical, em grande parte ainda analfabeto. Não. Indago sobre a eficácia e qualidade do improvisado ensino, que em instantes enriquece alguns, (na iniciativa privada), depauperando a universidade pública, hoje sucateada, com seus "campi" relegados ao abandono, escassez de verbas, desrespeito a docentes e servidores. São esqueletos de elefantes brancos, apontando para os céus.  As instituições privadas, por sua vez, prosperam e se agigantam, como no primeiro mundo. Mas, até onde sei, as grandes nações capitalistas estimulam a iniciativa privada, preservando, porém, o orgulho de suas centenárias instituições culturais, que são patrimônio de sua história.

 

Felizmente, parece que essa onda está passando. As políticas internacionais do Estado mínimo não trouxeram, ao que parece, os resultados esperados. Apraz-nos ver a res publica impor sua soberania à res privata, freando esse caudal voluptuoso e ressuscitando os valores transcendentais que nos foram legados por Grécia e Roma, fontes de nossa cultura ocidental. Prova disto é a limitação doravante imposta pelo Ministério da Educação à desordenada criação de novos cursos de medicina e direito, tal como vinha ocorrendo.


Pra não dizer que só falei em flores, eis um trecho de uma prova realizada na Universidade de São Paulo, constante de uma estrofe do belo soneto de Camões, para interpretação dos alunos:

“Amor é fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói e não se sente,
É um contentamento descontente,
Dor que desatina sem doer”
     
Uma vestibulanda de 19 anos deu a sua interpretação, também em forma de poesia:

"Ah! Camões, se vivesses hoje em dia,
tomavas uns antipiréticos,
uns quantos analgésicos
Prozac pra depressão.
Compravas um computador,
consultavas a Internet
e então descobririas
que essas dores que sentias,
esses calores que te abrasavam,
essas mudanças de humor repentinas,
esses desatinos sem nexo,
não eram feridas de amor,
mas somente falta de sexo!"

Esta aluna ganhou nota dez. Foi a primeira vez que, ao longo de mais de 500 anos, alguém desconfiou que o problema de Camões era falta de mulher...

Eis o comentário que fez, a respeito desta alegre passagem, um ilustre colega, professor universitário e doutor na Sorbonne, Rui Gomes Dantas:

 " Talvez o problema da moça e de seus professores tenha sido falta de sensibilidade e inteligência para entender a mensagem de Camões. O mestre lisboeta está falando de amor, não de falo. Fácil falar de falo. Porém difícil, como o fez Camões, é interpretar o amor".

No entendimento do professor, a aluna mereceria zero e os seus professores, demitidos. Mas, como estamos "em terra de cego, quem tem um olho é rei". Desta forma, nada podemos fazer, a não ser proclamar, como fez, certa vez, o grande Ruy Barbosa, em uma de suas perorações:

"De tanto ver triunfar as NULIDADES, de tanto ver prosperar a DESONRA, de tanto ver crescer a INJUSTIÇA, de tanto ver  agigantar-se o poder nas mãos DOS MAUS, o homem chega a RIR-SE da honra, DESANIMAR-SE da justiça, e TER VERGONHA de ser honesto.

Há tantos burros mandando em homens de inteligência, que, às vezes, fico pensando que a burrice é uma Ciência"
(Ruy)

João Pessoa, março de 2012

* Procurador do Estado – aposentado.